terça-feira, 1 de maio de 2012

Suporte Básico de Vida (Parte I)

Avaliação do nível de consciência

Após ter certeza de que o local está seguro, o socorrista deve se aproximar da vítima, avaliar rapidamente
a presença de qualquer trauma e determinar se a pessoa está respondendo, tocar e agitar gentilmente seus ombros, e gritar: "Você está bem?" Se há suspeita de trauma, o socorrista deve mover a vítima somente se necessário, pois qualquer movimento inadequado pode causar lesão medular.

Quando se fica frente a uma vítima lactente, a avaliação do nível de consciência deve ser pesquisada apli-
cando-se leves palmadas na região plantar dos pés e observando a sua responsividade, como choro ou reflexo de retirada.

Ativar o sistema de serviço médico de emergência (SME)

Quando a vítima encontra-se inconsciente, deve ser ativado o SME, e também deve ser solicitado um desfibrilador externo automático. Ativar o SME significa telefonar para o número de emergência local (pronto-socorro próximo, serviço de atendimento médico domiciliar, bombeiros etc). Nas grandes cidades brasileiras, esse número é 192. A pessoa que chama o SME deve estar apta a fornecer os seguintes dados:

1. Localização - endereço completo e pontos de referência.
2. Telefone do local.
3. O que aconteceu - acidente automobilístico, ataque cardíaco etc.
4. Quantas pessoas necessitam de atendimento.
5. Condições das vítimas.
6. O que está sendo feito para as vítimas.
7. Outras informações solicitadas pelo pessoal do SME.

Uma das questões mais polémicas em suporte básico de vida diz respeito a quando se deve ativar o SME
para uma vítima adulta, não-responsiva, apnéica e sem pulso. Estudos prévios revelaram que 80% a 85% dos episódios de parada cardiorrespiratória em adultos aconteciam em ritmo de fibrilação ventricular. Como o único tratamento efetivo para a fibrilação ventricular é a desfibrilação, torna-se fundamental que um desfibrilador esteja disponível o mais brevemente possível para que um choque possa ser deflagrado, revertendo a fibrilação ventricular a um ritmo de perfusão. Portanto, assim que se constate a ausência de responsividade de uma vítima, deve ser ativado o SME e solicitado um desfibrilador, mesmo que para isso seja necessário que o socorrista abandone a vitima por alguns poucos minutos.

Sabemos, no entanto, que em algumas situações, particularmente crianças, obstruções de vias aéreas por
corpo estranho, intoxicação por drogas e vítimas de trauma ou de afogamento, a parada cardíaca pode darse em outro ritmo cardíaco que não a fibrilação ventricular (assistolia ou atividade elétrica sem pulso).

Nessas situações, a hipoxia é um fator intimamente relacionado à génese da PCR, sendo menor a prioridade de um desfibrilador. Assim, tais vítimas poderiam beneficiar-se de uma estratégia que provesse dois minutos de ressusitaçào cardiopulmonar (RCP) antes da ativação do ser viço médico de emergência. A abordagem rápida da hipoxia poderia reverter a PCR para um ritmo de circulação espontânea. Essa situação foi demonstrada cm um estudo europeu recente, no qual se observou uma incidência de parada cardíaca cuja causa era não-cardíaca em 34% dos casos, com um prognóstico melhor que das vítimas de parada cardíaca de causa cardíaca.

Diante desses fatos, a American Heart Association propôs que seja realizado um algoritmo baseado em
etiologias; ou seja, se houver qualquer evidência de que a etiologia da PCR seja não-cardíaca, deve-se
prover dois minutos de RCP, seguida da ativação do serviço médico de emergência ("chamar rápido"), mantendose para as PCR de provável etiologia cardíaca com colapso súbito testemunhado a estrategia de chamar primeiro. Sugere-se como método para inversão do "chamar primeiro" para o "chamar rápido", o mneumônico KIDS, que envolve: kids (crianças), injury (trauma),drugs (drogas) e submersion (afogamento). Vale ressaltar, no entanto, que ainda não sabemos com precisão qual porcentagem dos episódios de PCR é atendida por apenas um socorrista, situação em que "chamar primeiro" ou "chamar rápido" poderia modificar o resultado do atendimento.


Quando dois ou mais socorristas estão presentes, um poderia chamar por ajuda e por um desfibrilador simultaneamente ao início da RCP realizada por outro.

Posicionamento da vítima

Para que a avaliação e a ressuscitação sejam eficazes, a vítima deve estar em decúbito dorsal, sobre uma
superfície plana e rígida. Se a vítima estiver com a face voltada para o chão, deve-se virá-la como uma unidade (em bloco); assim, a cabeça, o pescoço, os ombros e o tronco serão movidos sem torção. Todo o corpo da vítima deve estar em um mesmo plano, com os braços posicionados ao longo do corpo.

O socorrista deve se posicionar entre a cabeça e o tronco da vítima para fazer tanto as respirações quanto
as compressões torácicas.

Vias aéreas

É importante lembrar que a língua é a causa mais comum de obstrução das vias aéreas em uma vítima in-
consciente. A língua relaxada recai sobre a parede posterior da faringe, ocluindo, dessa forma, as vias aéreas.
Quando a mandíbula é tracionada para a frente, a língua é levantada, afastando-se da parede posterior da faringe, permitindo assim a passagem de ar.
Se não há evidência de trauma craniano ou cervical, o socorrista deve usar a manobra de inclinação da
cabeça e elevação do queixo para abrir as vias aéreas, remover qualquer material, vómitos ou próteses presentes na boca, secando os líquidos com os dedos protegidos por luvas ou panos, enquanto mantém a via aérea aberta com a outra mão.

Inclinação da cabeça-elevação do queixo

Para realizar a manobra de abertura das vias aéreas em adultos e crianças, o socorrista deve colocar uma
das mãos firmemente sobre a testa da vitima e inclinar a cabeça para trás. Simultaneamente, deve colocar o segundo e o terceiro dedos da outra mao na parte óssea do queixo e realizar o movimento de elevação da mandíbula .

Nos lactentes, a inclinação da cabeça deve ser feita de forma mais branda, nio sendo necessária a hiperextensão do pescoço.
Uma alternativa para a abertura das vias aereas é a manobra de trácão da mandíbula, em que o socorrista
deve colocar as mãos uma de cada Lado da cabeça da vitima, apoiando seus cotovelos na superfície em que a vítima está deitada. Segurar firmemente no angulo inferior da mandíbula e levantar ambos os lado. Se os 1abios se fecharem, é necessário abri-los com os polegares. Se a respiração boca-a-boca for necessária, manter a tração da mandíbula e vedar as narinas dalocando sua face contra elas. Essa técnica é para abrir as vias aéreas, porém é tecnicamente dificil e cansativa para o socorrista, sendo a mais segura para uma abordagem inicial de uma vítima com suspeita de trauma cervical. Nessa eventualidade, qualquer movimento látero-lateral ou de flexão da cabeça deve ser evitada . No entanto, não devemos hesitar em realizar a manobra de inclinação da cabeça-elevação do queixo frente a qualquer dificuldade em tracionar a mandíbula, visto que a prioridade em vitimas de trauma é a veni ilação.

 Respiração

Para avaliar a respiração, o socorrista deve colocar seu ouvido bem próximo à boca e ao nariz da vitima,
enquanto mantém sempre as vias aéreas abertas. Assim, enquanto observa o tórax da vitima, o socorrista deve: verificar se o tórax se eleva, ouvir se há ruído de ar durante a respiração, e sentir o fluxo de ar. A ausência de expansibilidade torácica e fluxo de ar confirmam que a vítima não está respirando. Essa avaliação deve durar no mínimo cinco segundos e não pode exceder os dez segundos.

A ausência de respiração ou respiração inadequada (sinais de obstrução das vias aéreas, gasping etc.) requera realização de duas respirações de resgate com duração de um segundo por ventilação para vítimas de todas as idades, que provoque elevação torácica visível. O tempo de ventilação foi reduzido para um segundo com os objetivos de:

  • Minimizar as interrupções entre as compressões torácicas;
  • Reduzir a hiperinsuflação gástrica, a regurgitação e suas complicações subsequentes, como pneumonia aspirativa;
  • Reduzir a pressão intratorácica, favorecendo o retorno venoso e o débito cardíaco;
  • Manter o equilíbrio da relação vcntilaçào-perfusào, visto que durante uma PCR o fluxo sanguíneo pulmonar é de apenas 25%-33% do valor normal.

Respiração de resgate: respiração boca-a-boca

Quando a vítima não apresenta respiração efetiva, devem ser iniciadas as respirações de resgate. A palma
de uma das mãos do socorrista deve ser mantida sobre a testa da vítima ocluindo suas narinas com o polegar e o dedo indicador, evitando, dessa forma, a saída do ar .

O socorrista sela sua boca ao redor da boca da vítima, realizando em seguida duas ventilações efeti-
vas, cada uma delas com duração de um segundo, observando a elevação do tórax da vítima durante a inspiração e permitindo a expiração passiva. O objetivo dessas duas ventilações iniciais não é propriamente fornecer oxigénio ã vítima, mas apenas testar a permeabilidade das vias aéreas.

Caso as tentativas iniciais de ventilação sejam frusradas, o socorrista deve reposicionar a cabeça da vítimas e tentar novamente. A abertura inadequada das vias léreas é a principal causa de dificuldade para ventilar uma vítima. Se a vítima não puder ser ventilada mesmo após o reposicionamento da cabeça, deve-se suspeitar de obstrução da via aérea por corpo estranho. O socorista deve iniciar prontamente a manobra de desobsruçào da via aérea.

Respiração boca-nariz

A respiração boca-nariz é o método recomendado quando a respiração boca-a-boca for impossível. Pode ser recomendada para vítimas de submersão, pois o socorrista pode iniciar a respiração tão logo a cabeça da vítima esteja fora d'água.

Para realizar a respiração boca-nariz, o socorrista deve inclinar a cabeça da vítima para trás com uma das
mãos na testa e a outra na mandíbula (como na manobra de inclinação da cabeça e elevação do queixo) e fechar a boca da vítima. Selar seus lábios ao redor do nariz da vítima e expirar para dentro do nariz, permitindo, então, a expiração passiva, para o que pode ser necessária a abertura dos lábios da vítima com os polegares.
Em lactentes e crianças menores, devemos realizar a manobra de ventilação boca-boca-nariz,  que consiste em acoplar os lábios do socorrista à boca e ao nariz da vitima.

 
SERRANO jr. Carlos V. Et al. Tratado de Cardiologia Socesp,2° ed, editora Manole, São Paulo,2009.


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